É bem verdade que a arte literária não está restrita ao fluxo de sentimentos que se derramam incontrolavelmente do coração para o papel, como tenta nos convencer o romantismo. É bem verdade que o “anjo lindo” “pálida à luz da lâmpada sombria”, de Álvares de Azevedo, não saiu de suas elucubrações ruminantes advindas do âmago do seu ser apaixonado; no entanto é preciso colocar um peso do outro lado da balança, porque somente com a razão não se produz senão o tecnicismo e o preciosismo perfeccionista que, bem pesado e medido, constituem até uma ofensa à verdadeira arte e ao seu caráter etéreo.
Escrever não é obra de engenharia, senão seria fácil: como escrever um soneto; lição um: pense em alguma ideia que caiba em dois quartetos e dois tercetos; lição dois: decida a quantidade de sílabas poéticas; lição três: decida o tipo de rima... e por aí a fora. O produto final seria alguma coisa, dentro de uma forma (com ‘o’ fechado mesmo), parecida com um prédio de conjunto popular financiado pelo governo; ou seja, nada que encha os olhos.
Para ser poeta é preciso ser mais que engenheiro: é preciso ser poeta. Certamente não foi meramente o curso de engenharia que ensinou Niemayer a planejar aquelas construções que atraem o nosso olhar e nos fazem entender que não é preciso entender muita coisa; ou que para entender é preciso sentir. Para ser poeta é preciso, antes de pensar, sentir, compreender com o coração, pois a razão é insuficiente quando se trata do que está além da matéria, do palpável, do explicável. Aliás, é o excesso de razão que nos prende numa cela e nos impede de olhar para a lua e saber que aquilo é muito mais do que o satélite natural da Terra, saber que a água é muito mais que duas partículas de hidrogênio e uma de oxigênio, nos impede de saber que um mais um nunca foi dois.
Sim, é preciso saber que é preciso sentir, ter paixão pulsando nas veias; é preciso aprender a desaprender, ensinar ao nosso intelecto que não é só ele que manda, que ele depende do coração para ir além do pragmatismo insosso e metálico que teima em nos contornar com seu campo de força.
Não há problema em continuar pesquisando, estudando, questionando, esquentando o cérebro; mas, se quiser ser poeta, é preciso lembrar de esquecer; é preciso andar na contramão, inverter a gravidade, virar tudo pelo avesso – até o que já estiver assim –; é preciso viajar pelo impossível sem se importar que o seja, simplesmente para ver o que é que tem lá e colher alguma coisa. Na luta contra a razão, é preciso chorar pelo menos uma gota de sangue, sangrar pelo menos uma lágrima – se quiser ser poeta – até conseguir que ela ceda a parte que cabe ao coração.