Escrever é tentar mudar as coisas de lugar, tirá-las do seu mundo e transportá-las para outro. E não é só no papel que se escreve... e nem sempre se escreve por cima, na superfície, a tinta ou a lápis; nem sempre: às vezes se escreve ferindo, dilacerando, fazendo escorrer a seiva, o sangue. Escrever é fazer metamorfoses, mas nem sempre é libertar lagartas de seus casulos; às vezes é fazer a borboleta parar de voar, virar lagarta de novo, voltar de onde veio, ignota.
Escrever é tirar as palavras do vento e cravá-las em algum lugar, para que não se percam; e, no caso de se perderem, serem encontradas um dia, quem sabe estranhas, exóticas, em um novo mundo, no entanto vivas. A escrita pode ser um grito de socorro que ecoa a favor de quem ainda virá, pelos que não sabem gritar, pelos que não sabem viver. Escrever é fazer magia boa ou bruxaria, mas sempre fazer magia. Você pode estar pensando: “mas às vezes não há nada de mágico num texto, numa frase”. Há sim! Ainda que simples, que elementar, mas há algum poder. Algo sempre muda diante das palavras, algum incômodo elas causam; alguma alegria, ou tristeza, ou raiva, ou curiosidade, ou espanto... seja lá que sentimento, ainda que fraco como a respiração de um passarinho, mas surgirá.
Escrever é sempre uma aventura, considerando que não se sabe exatamente no que resultará, posto que o texto, uma vez no mundo, deixa de ser somente seu, entregando-se desinibidamente a cada olhar que o desafia. Alguém já disse que as palavras têm poder; e têm mesmo, ainda mais se forem materializadas, se puderem ser reencontradas, redescobertas, relidas, antes de se decomporem e se juntarem às outras que se perderam ao vento.
Há corações em árvores, há “Marias” e “Joões” dentro deles, enamorados enquanto as árvores existirem, numa chance infalível daqueles amores serem eternos enquanto durarem. Naquela inscrição, eles serão felizes até que a morte (da árvore) os separe. Há também lembranças bem vivas e consoladoras dos que se foram, que acabam sendo transformadas em mórbidos epitáfios (com o perdão da redundância) por mãos que tentam eternizar a tristeza. Há palavras em cartas, e-mails, baús, em pedras, paredes, recortes... nos mais variados suportes, que terão sobrevida por estarem ali. Enquanto houver a chance de serem lidas, podem ser consideradas vivas as palavras. Elas foram escritas e estão por aí, sem se mexer, mas sendo mexidas; sem se fazer entender, mas sendo entendidas ou causando desentendimento.
Escrever é privar as palavras da privacidade, é dar à luz a uma forma de vida, ou a alguma forma de morte. Escrever é colocar algum João ou alguma Maria em algum coração.