crônicas

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Organismo de papel


Eu não me vejo livre do livro,
De desvendá-lo capa a capa
Virando página por página
De suas folhas misteriosas.
Eu não me vejo livre
De velar seu sono encima do móvel
Enquanto aguarda a hora de ser violado.
Eu não tolero as letras na tela,
Nem precisar bater em teclas
Ou arrastar um rato
Para poder passar as páginas.
A arte escrita não fica bem
Atrás de um vidro, em outra esfera;
É no papel que ela é viva,
Que ela é livre, que ela é bela.
Eu não me veria sem o livro,
Sem a textura fosca das laudas;
Sem poder defraudá-las,
As fazendo passar pelos meus dedos
E me darem o cheiro inconfundível
De sua áurea vegetal.
Eu não me veria sem o livro,
Sem sua estrutura física
Ao invés da virtual.
Eu não suportaria só vê-lo
Pairando num tecnológico léu
Sem poder tocá-lo,
Sem poder segurá-lo em minhas mãos
E sentir pulsar a vida que circula
No seu pitoresco coração,
No seu organismo de papel.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Lamúria pelas rosas

As rosas possuem pétalas,
Mas também possuem penas.
E quem tem pena das rosas?
Quem se compadece
Pelo seu aroma de amor
Misterioso odor
Que também ao de morte parece?

As rosas possuem cores,
Mas também tem dissabores.
Cadê os amores das rosas?
Quem sente compaixão
Ao vê-las ao lado de velas
Com a morte a envolvê-las
Junto ao morto e ao caixão?

As rosas possuem encanto,
Mas também carregam prantos.
E quem ouve o pranto das rosas?
Quem tem misericórdia
Quando vê sua vida esvaindo
Quando vão murchando e caindo
Enquanto a morte as desposa?