Eu não
me vejo livre do livro,
De
desvendá-lo capa a capa
Virando
página por página
De
suas folhas misteriosas.
Eu
não me vejo livre
De
velar seu sono encima do móvel
Enquanto
aguarda a hora de ser violado.
Eu
não tolero as letras na tela,
Nem
precisar bater em teclas
Ou
arrastar um rato
Para
poder passar as páginas.
A
arte escrita não fica bem
Atrás
de um vidro, em outra esfera;
É no
papel que ela é viva,
Que
ela é livre, que ela é bela.
Eu
não me veria sem o livro,
Sem
a textura fosca das laudas;
Sem
poder defraudá-las,
As
fazendo passar pelos meus dedos
E me
darem o cheiro inconfundível
De
sua áurea vegetal.
Eu
não me veria sem o livro,
Sem
sua estrutura física
Ao
invés da virtual.
Eu
não suportaria só vê-lo
Pairando
num tecnológico léu
Sem
poder tocá-lo,
Sem
poder segurá-lo em minhas mãos
E
sentir pulsar a vida que circula
No
seu pitoresco coração,
No seu organismo de papel.