crônicas

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Organismo de papel


Eu não me vejo livre do livro,
De desvendá-lo capa a capa
Virando página por página
De suas folhas misteriosas.
Eu não me vejo livre
De velar seu sono encima do móvel
Enquanto aguarda a hora de ser violado.
Eu não tolero as letras na tela,
Nem precisar bater em teclas
Ou arrastar um rato
Para poder passar as páginas.
A arte escrita não fica bem
Atrás de um vidro, em outra esfera;
É no papel que ela é viva,
Que ela é livre, que ela é bela.
Eu não me veria sem o livro,
Sem a textura fosca das laudas;
Sem poder defraudá-las,
As fazendo passar pelos meus dedos
E me darem o cheiro inconfundível
De sua áurea vegetal.
Eu não me veria sem o livro,
Sem sua estrutura física
Ao invés da virtual.
Eu não suportaria só vê-lo
Pairando num tecnológico léu
Sem poder tocá-lo,
Sem poder segurá-lo em minhas mãos
E sentir pulsar a vida que circula
No seu pitoresco coração,
No seu organismo de papel.

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