crônicas

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Ao mestre com carinho

Eu já havia visto atraso de tudo quanto é tipo, em tudo quanto é situação. Já vi noiva atrasar o casamento, já vi atraso de noivo também; já vi time atrasar a partida, e mesmo o árbitro; por falar nesse, já vi juiz atrasar audiência (advogado, então, nem se fala!); já vi namorado e, principalmente, namorada atrasar o encontro; já vi padre atrasar a missa; pastor atrasar o culto; coveiro atrasar o enterro; motorista atrasar a viagem... Mas o certo é que surpresa não se chamaria surpresa se não surpreendesse... e aquele rapaz conseguiu realmente surpreender ao chegar com uma hora de atraso à cerimônia de sua própria defesa de dissertação de mestrado.
            Eu cheguei às 14:00h em ponto – bem no horário marcado no anúncio – e achei estranho quando vi o auditório vazio. Olhei o relógio para conferir as horas, pensei até na hipótese de eu haver me equivocado com o horário da dita defesa. Só que havia um grupinho do lado de fora, com gente de cara intrigada como estava a minha. Fiquei por ali também, aguardando que algo acontecesse, quando surgiu no corredor um outro grupo – esse de professores – aparentando uma certa agitação, enquanto se dirigiam para o auditório. Dois deles seriam os membros da banca examinadora e, o outro, presidente da mesa e orientador da figura lendária que acabava de inaugurar uma nova modalidade de atraso: atraso de mestrando em dia de defesa.
            Na medida em que o tempo passava, o coitado do orientador se desprendia em pedidos de desculpas para o público em burburinho e para os ilustres da banca. Tentou, já irritado, ligar para o celular do rapaz, como um pai que tenta localizar um filho encrencado. Após dezenas de tentativas, finalmente o infrator atendeu; e, antes que dissesse mais alguma palavra depois do alô, foi lhe dado cinco minutos para chegar, sob pena de ter sua defesa de mestrado cancelada. Fiz questão de marcar o tempo e pude perceber que a misericórdia do orientador sobrepujava sua raiva, pois o emblemático moço chegou onze minutos após a advertência. Apareceu correndo porta adentro e prosseguiu, sem saber se continuava correndo ou se parava para se desculpar com o público. Atrapalhadamente tentou fazer as duas coisas, até chegar, tropeçando nas próprias pernas, à mesa que o esperava. Antes de se sentar, ainda tentou, inutilmente, estancar o vexame que escorria em bicas: parou na frente da mesa examinadora e ficou se encurvando repetidas vezes, enquanto rogava a clemência dos membros da banca, como um condenado na inquisição. Os professores acenaram o absorvendo, e o orientador – no papel de presidente da mesa – mandou que o rapaz tomasse logo o seu lugar para que ele pudesse iniciar os trabalhos sem ainda mais atraso. O mestrando sentou-se rapidamente, mostrando total subserviência, já que, a essa altura, qualquer outro deslize lhe poderia ser fatal.
            Seria óbvio dizer que o antológico jovem foi possuído por uma tensão ainda mais intensa do que a que costuma se apossar do indivíduo numa cerimônia desse tipo; desse modo, durante a fala do lendário moço, as folhas com o texto que ele tentava ler tremiam como se estivessem presas a uma britadeira. No entanto, ele conseguiu concluir a leitura, apesar da dificuldade, acompanhada pelos constantes pedidos de desculpas a cada gaguejada. Logo em seguida veio à tona um dos agravantes do seu nervosismo: antes dele voltar a palavra para a banca, todos pudemos perceber que havia algo ainda mais intenso que a vergonha do rapaz, tal que o fez superar qualquer receio para solicitar permissão para ir ao banheiro. Até aqui não seria demais dar ao corajoso estudante algumas páginas nos anais da história e de tudo o que começa com prefixo psic; só que o danado foi ainda mais longe. Ganhou um bônus de dois minutos para se livrar daquilo que o oprimia, mas só apareceu depois de cinco minutos, como quem não quisesse deixar uma faísca de dúvida em relação ao seu comportamento para com os compromissos. Dessa vez não arriscou uma palavra; só entrou, tentando, em vão, não ser notado. Para a sorte dele, houve certa distração e ninguém na banca examinadora atinou para o tempo decorrido.
            Passados todos esses percalços, os trabalhos prosseguiram dentro da normalidade que se espera no que diz respeito à expectativa relacionada a um contrato social-acadêmico de defesa de dissertação: dezenas de críticas – que iam desde a formatação, passando pelos erros gramaticais até questões comprometedoras de conteúdo e embasamento teórico –, um ou outro pequeno elogio compensatório e, por fim, o diploma de mestre, com todas as honras que um belo e consistente trabalho mereceria. Só ficou o débito de uma hora e cinco minutos, que o tempo não compensa, não esquece, nem deixa passar batido.
Legendários cremes

Há coisas debaixo do sol que eu não consigo entender. Umas dessas são as revistas de cosméticos com seus produtos no mínimo estranhos. Nelas a gente encontra todo tipo de esquisitice, que vai desde produtos pseudomilagrosos, até os que desfazem o que o outro produto fez ou refazem o que o outro desfez.
Veja só se isso não é estranho. Estava eu, distraidamente, foleando uma  dessas revistas quando me deparei com um produto em destaque, acompanhado pelos seguintes dizeres: “Para uma pele iluminada”. Algumas páginas depois – para não dar muito na cara – me aparece outro produto, cuja promessa anexa era a de eliminar o brilho da pele. Pergunta inevitável: afinal de contas, o bacana é ter uma pele iluminada ou sem brilho?
Se não existisse luz elétrica seria fácil matar a charada: o primeiro seria para a noite, a fim que as pessoas pudessem se localizar no escuro; o outro seria usado pela manhã ou na hora de dormir, como uma espécie de interruptor cremoso. Só que temos luz elétrica e, na falta dela, temos velas, lanternas, faróis... o fato é que ninguém no presente século vai ficar no escuro à mercê de um creme.
Pois é, quando pensei que não teria mais nenhuma surpresa, o improvável aconteceu. Uma revista, aparentemente tão insuspeita, até mesmo monótona, conseguiu outra vez a proeza de puxar toda minha atenção para si. Desta feita o culpado foi um produto, cuja palavra mais apropriada para defini-lo seria o adjetivo místico. Logo abaixo do nome da marca – todo cheio de dáblios e ípsilones – estava a inscrição fantasmagórica: “creme anti-idade”. Logo de cara me assustei, pensando que aquilo fosse veneno. Sim, porque, logicamente, aquilo que é “anti” é contra e, por conseguinte, nesse caso seria contra a idade; ou seja, a pessoa usa algo contrário à idade; em outras palavras, contrário à vida. É, porque só quem está vivo possui alguma idade.
Não sei se me senti mais aliviado, se dava risada, ou se me revoltava ao ler a piada explicativa do referido produto. Um creme, cujo pote vem com os dizeres “creme anti-idade”, merecia mesmo uma argumentação de mestre para elucidá-lo. Para mim seria menos inusitado se as explicações confirmassem minhas suspeitas de que aquela pasta era mesmo um veneno. Só que não, conseguiram ir além e afirmar que aquilo era um produto rejuvenescedor; ou seja, hoje eu tenho 40 anos, daqui a alguns dias terei 20 e poderei até alimentar algum sonho que minha idade atual não mais permite que eu tenha.
Só não consegui entender uma coisa que, a propósito, não continha nenhuma orientação a respeito: como é que a gente faz para passar esse creme mágico nas nossas entranhas? Sim, porque não é apenas a nossa derme que envelhece.

Deveria é existir um jeito de se criar um creme que tivesse o poder de iluminar as almas sombrias dos que vivem de fabricar e vender fantasias, um creme que os fizesse não rejuvenescer, porém adquirir mais humanidade, ao se livrarem da crosta egoísta e interesseira que os permeia.
Não se ama de graça

Amar é viajar por um desconhecido mar
É mergulhar e se deixar levar.
Amar é mar que surpreende
É lugar que não se entende.
É água tranquila e mansa
Onde o coração descansa
É vento que sopra e arrasa
É onda que despedaça
Não se ama de graça...

Amar é esquecer o preço do amor
Que não se paga nem com a dor
É viver no claro e no escuro
É ouvir os sussurros e urros
É sentir os carinhos e murros do amor.
Quem ama é escravo porque quer
Ainda que não se queira ser
Quem ama não é o que é
Pois amar é viver e morrer
Pra pagar o amor
Que não tem preço
Que não se paga
Mas amor é amor
E não se ama de graça...
Pode ser que não seja eu

De hoje em diante eu prometo
Que não prometo mais nada;
Vou fingir que não estou fingindo,
Vou nadar no nada, vou voar sem asa.
De hoje em diante, esclareço:
Que não vou mais esclarecer,
Não vou explicar, ainda mais ao entender
Que na há entendimento.
De hoje em diante eu afirmo
Que não afirmo mais nada.
Vou quebrar as regras
Sem regrar a quebras.
Começou em minha vida
Uma nova era
E não sou mais o que eu era.
Ou, talvez, eu seja e esteja
Só fingindo sinceridade.
De hoje em diante, não se assuste
Ao me ver, ao me ouvir, ao me cheirar
E só sentir sair ambiguidade.
Pois vou sair por aí
Ainda que sem ir a nenhum lugar.
E muitos vão me ver,
Mas pode ser que não seja eu,
Que seja em vão me ver;
Pode ser que o meu vão viver
Esteja atrapalhando as retinas.
De hoje em diante, eu sinto muito,
Mas não vou sentir mais nada,
Não vou penalizar e nem ter pena.
Luto, minuto após minuto
Até fecharem-se as cortinas.