Legendários cremes
Há
coisas debaixo do sol que eu não consigo entender. Umas dessas são as revistas
de cosméticos com seus produtos no mínimo estranhos. Nelas a gente encontra
todo tipo de esquisitice, que vai desde produtos pseudomilagrosos, até os que
desfazem o que o outro produto fez ou refazem o que o outro desfez.
Veja
só se isso não é estranho. Estava eu, distraidamente, foleando uma dessas revistas quando me deparei com um
produto em destaque, acompanhado pelos seguintes dizeres: “Para uma pele
iluminada”. Algumas páginas depois – para não dar muito na cara – me aparece
outro produto, cuja promessa anexa era a de eliminar o brilho da pele. Pergunta
inevitável: afinal de contas, o bacana é ter uma pele iluminada ou sem brilho?
Se
não existisse luz elétrica seria fácil matar a charada: o primeiro seria para a
noite, a fim que as pessoas pudessem se localizar no escuro; o outro seria
usado pela manhã ou na hora de dormir, como uma espécie de interruptor cremoso.
Só que temos luz elétrica e, na falta dela, temos velas, lanternas, faróis... o
fato é que ninguém no presente século vai ficar no escuro à mercê de um creme.
Pois
é, quando pensei que não teria mais nenhuma surpresa, o improvável aconteceu. Uma
revista, aparentemente tão insuspeita, até mesmo monótona, conseguiu outra vez
a proeza de puxar toda minha atenção para si. Desta feita o culpado foi um
produto, cuja palavra mais apropriada para defini-lo seria o adjetivo místico.
Logo abaixo do nome da marca – todo cheio de dáblios e ípsilones – estava
a inscrição fantasmagórica: “creme anti-idade”. Logo de cara me assustei,
pensando que aquilo fosse veneno. Sim, porque, logicamente, aquilo que é “anti”
é contra e, por conseguinte, nesse caso seria contra a idade; ou seja, a pessoa
usa algo contrário à idade; em outras palavras, contrário à vida. É, porque só
quem está vivo possui alguma idade.
Não
sei se me senti mais aliviado, se dava risada, ou se me revoltava ao ler a
piada explicativa do referido produto. Um creme, cujo pote vem com os dizeres “creme
anti-idade”, merecia mesmo uma argumentação de mestre para elucidá-lo. Para mim
seria menos inusitado se as explicações confirmassem minhas suspeitas de que
aquela pasta era mesmo um veneno. Só que não, conseguiram ir além e afirmar que
aquilo era um produto rejuvenescedor; ou seja, hoje eu tenho 40 anos, daqui a
alguns dias terei 20 e poderei até alimentar algum sonho que minha idade atual
não mais permite que eu tenha.
Só
não consegui entender uma coisa que, a propósito, não continha nenhuma
orientação a respeito: como é que a gente faz para passar esse creme mágico nas
nossas entranhas? Sim, porque não é apenas a nossa derme que envelhece.
Deveria
é existir um jeito de se criar um creme que tivesse o poder de iluminar as
almas sombrias dos que vivem de fabricar e vender fantasias, um creme que os
fizesse não rejuvenescer, porém adquirir mais humanidade, ao se livrarem da
crosta egoísta e interesseira que os permeia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário