crônicas

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Legendários cremes

Há coisas debaixo do sol que eu não consigo entender. Umas dessas são as revistas de cosméticos com seus produtos no mínimo estranhos. Nelas a gente encontra todo tipo de esquisitice, que vai desde produtos pseudomilagrosos, até os que desfazem o que o outro produto fez ou refazem o que o outro desfez.
Veja só se isso não é estranho. Estava eu, distraidamente, foleando uma  dessas revistas quando me deparei com um produto em destaque, acompanhado pelos seguintes dizeres: “Para uma pele iluminada”. Algumas páginas depois – para não dar muito na cara – me aparece outro produto, cuja promessa anexa era a de eliminar o brilho da pele. Pergunta inevitável: afinal de contas, o bacana é ter uma pele iluminada ou sem brilho?
Se não existisse luz elétrica seria fácil matar a charada: o primeiro seria para a noite, a fim que as pessoas pudessem se localizar no escuro; o outro seria usado pela manhã ou na hora de dormir, como uma espécie de interruptor cremoso. Só que temos luz elétrica e, na falta dela, temos velas, lanternas, faróis... o fato é que ninguém no presente século vai ficar no escuro à mercê de um creme.
Pois é, quando pensei que não teria mais nenhuma surpresa, o improvável aconteceu. Uma revista, aparentemente tão insuspeita, até mesmo monótona, conseguiu outra vez a proeza de puxar toda minha atenção para si. Desta feita o culpado foi um produto, cuja palavra mais apropriada para defini-lo seria o adjetivo místico. Logo abaixo do nome da marca – todo cheio de dáblios e ípsilones – estava a inscrição fantasmagórica: “creme anti-idade”. Logo de cara me assustei, pensando que aquilo fosse veneno. Sim, porque, logicamente, aquilo que é “anti” é contra e, por conseguinte, nesse caso seria contra a idade; ou seja, a pessoa usa algo contrário à idade; em outras palavras, contrário à vida. É, porque só quem está vivo possui alguma idade.
Não sei se me senti mais aliviado, se dava risada, ou se me revoltava ao ler a piada explicativa do referido produto. Um creme, cujo pote vem com os dizeres “creme anti-idade”, merecia mesmo uma argumentação de mestre para elucidá-lo. Para mim seria menos inusitado se as explicações confirmassem minhas suspeitas de que aquela pasta era mesmo um veneno. Só que não, conseguiram ir além e afirmar que aquilo era um produto rejuvenescedor; ou seja, hoje eu tenho 40 anos, daqui a alguns dias terei 20 e poderei até alimentar algum sonho que minha idade atual não mais permite que eu tenha.
Só não consegui entender uma coisa que, a propósito, não continha nenhuma orientação a respeito: como é que a gente faz para passar esse creme mágico nas nossas entranhas? Sim, porque não é apenas a nossa derme que envelhece.

Deveria é existir um jeito de se criar um creme que tivesse o poder de iluminar as almas sombrias dos que vivem de fabricar e vender fantasias, um creme que os fizesse não rejuvenescer, porém adquirir mais humanidade, ao se livrarem da crosta egoísta e interesseira que os permeia.

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