crônicas

sábado, 30 de junho de 2012

Depois, tudo vira ficção


Já no corredor era possível ouvir a reclamação. Bruna chegou dizendo que estava estressada com aquela bagunça que foi o encontro das escolas na Assembleia:
- Ninguém merece tanta falta de organização; era menino pra tudo o quanto é lado; e a tal da palestra contra o crack, mesmo, não aconteceu.
Depois chegou a Vera, que pelo menos esperou a gente perguntar:
- E aí, como foi?
Essa também parecia não ter gostado, mas procurou – talvez pela seriedade de seu cargo (diretora) – evitar alarde sobre o assunto:
- Foi bom; um certo tumulto era inevitável com tanto aluno, mas... e reclamou abertamente – só que ainda sem alarde – apenas do lanche, porque não tinha nada de sal. Quase no rastro da outra, entrou a Vilma:
- Gente! Que beleza que foi o encontro! Tudo muito organizado. Teve show e os meninos adoraram. Eu to cansada, mas valeu a pena.
Por fim, depois que essa saiu, a Cibele entrou espumando, nos deixando até com receio de perguntar, mas assim mesmo eu arrisquei:
- Afinal de contas, como foi o encontro lá na Assembleia?
- Pelo amor de Deus! Um verdadeiro tumulto, ninguém tinha controle dos alunos, sem falar no sol rachando em cima da gente.
O fato é que eu fiquei sem saber como realmente as coisas aconteceram; não estive lá para depois poder externar (ou calar) minha realidade. Fiquei curioso por indagar outros colegas, no entanto não pude: a maioria já chegou saindo, como que fugindo de ter que depor sobre o evento. A mim, que não estive lá, só me coube ficar refletindo. Primeiro, a respeito da ficção que é a vida. Parece que a realidade só existe no momento em que acontece; depois, tudo vira ponto de vista; e ponto de vista é ficção. Além da lembrança que é falha, que deixa lacunas, e precisa de algum remendo, além disso, há o estado de espírito e dezenas outras complexidades do ser humano (que, pelo amor de Deus, não dá para enumerar agora. Sem falar que eu não domino nem as minhas). O fato aconteceu... já era. A partir de então é adaptação, é “estória”. Aliás, que saudade dessa palavra, que jamais deveria ter sido expulsa do nosso léxico. Se fosse para escolher, era melhor ficar com essa e abrir mão da outra com H, que representava algo que não existe: a verdadeira história.
Minha outra reflexão foi a respeito do fato de milhares de estudantes de escolas públicas (muitos deles em idade de se tornarem eleitores) haverem sido convidados para um evento, com direito a show (e até lanche!), e isso em véspera de eleições. A respeito disso, o que dizer? O que pensar sobre um evento público entre a juventude e a eleição? Só pode ser uma coincidência que se aflora singelamente, como uma florzinha que nasce entre duas rochas!
           Agora, entre tantas ficções, há uma realidade; entre tantas mentiras, uma verdade: a vida é uma crônica e jamais uma notícia.

2 comentários:

  1. poxa gg não sabia q vc se expirava em tantos poemas etc.. desse jeito. parabens meus parabens mesmo

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