Já
no corredor era possível ouvir a reclamação. Bruna chegou dizendo que estava
estressada com aquela bagunça que foi o encontro das escolas na Assembleia:
-
Ninguém merece tanta falta de organização; era menino pra tudo o quanto é lado;
e a tal da palestra contra o crack,
mesmo, não aconteceu.
Depois
chegou a Vera, que pelo menos esperou a gente perguntar:
-
E aí, como foi?
Essa
também parecia não ter gostado, mas procurou – talvez pela seriedade de seu
cargo (diretora) – evitar alarde sobre o assunto:
-
Foi bom; um certo tumulto era inevitável com tanto aluno, mas... e reclamou
abertamente – só que ainda sem alarde – apenas do lanche, porque não tinha nada
de sal. Quase no rastro da outra, entrou a Vilma:
-
Gente! Que beleza que foi o encontro! Tudo muito organizado. Teve show e os
meninos adoraram. Eu to cansada, mas valeu a pena.
Por
fim, depois que essa saiu, a Cibele entrou espumando, nos deixando até com
receio de perguntar, mas assim mesmo eu arrisquei:
-
Afinal de contas, como foi o encontro lá na Assembleia?
-
Pelo amor de Deus! Um verdadeiro tumulto, ninguém tinha controle dos alunos,
sem falar no sol rachando em cima da gente.
O
fato é que eu fiquei sem saber como realmente as coisas aconteceram; não estive
lá para depois poder externar (ou calar) minha realidade. Fiquei curioso por
indagar outros colegas, no entanto não pude: a maioria já chegou saindo, como
que fugindo de ter que depor sobre o evento. A mim, que não estive lá, só me
coube ficar refletindo. Primeiro, a respeito da ficção que é a vida. Parece que
a realidade só existe no momento em que acontece; depois, tudo vira ponto de
vista; e ponto de vista é ficção. Além da lembrança que é falha, que deixa
lacunas, e precisa de algum remendo, além disso, há o estado de espírito e dezenas
outras complexidades do ser humano (que, pelo amor de Deus, não dá para
enumerar agora. Sem falar que eu não domino nem as minhas). O fato aconteceu...
já era. A partir de então é adaptação, é “estória”. Aliás, que saudade dessa
palavra, que jamais deveria ter sido expulsa do nosso léxico. Se fosse para
escolher, era melhor ficar com essa e abrir mão da outra com H, que
representava algo que não existe: a verdadeira história.
Minha
outra reflexão foi a respeito do fato de milhares de estudantes de escolas
públicas (muitos deles em idade de se tornarem eleitores) haverem sido
convidados para um evento, com direito a show (e até lanche!), e isso em
véspera de eleições. A respeito disso, o que dizer? O que pensar sobre um
evento público entre a juventude e a eleição? Só pode ser uma coincidência que
se aflora singelamente, como uma florzinha que nasce entre duas rochas!
Agora, entre tantas ficções, há uma realidade;
entre tantas mentiras, uma verdade: a vida é uma crônica e jamais uma notícia.
poxa gg não sabia q vc se expirava em tantos poemas etc.. desse jeito. parabens meus parabens mesmo
ResponderExcluirvc é um cronista e poeta nato
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